Eles não falavam português, não tinham dinheiro e foram direcionados ao Brasil por causa de uma profecia. Conheça a jornada de Daniel Berg e Gunnar Vingren e o início do maior movimento pentecostal do país.
Se alguém dissesse no início do século XX que a maior denominação evangélica do Brasil seria fundada por dois jovens suecos que mal falavam o nosso idioma, poucos acreditariam. Mas a história da Assembleia de Deus não começou com grandes planejamentos ou financiamentos robustos; ela começou com uma revelação divina e muita ousadia.
O Chamado para o “Pará”
A jornada começa em Chicago, nos Estados Unidos, em 1910. Gunnar Vingren e Daniel Berg, dois amigos suecos que haviam experimentado o batismo no Espírito Santo, participavam de uma reunião de oração quando receberam uma palavra profética. Através do dom de línguas e interpretação, foi-lhes dito que deveriam ir pregar o evangelho em um lugar chamado “Pará”.
Na época, eles não faziam ideia do que isso significava. Após pesquisarem em uma biblioteca, descobriram que o Pará era um estado no Norte do Brasil. Sem garantias financeiras, com apenas o dinheiro da passagem que lhes foi doado de forma milagrosa por irmãos locais, eles embarcaram rumo ao desconhecido.
A Chegada a Belém e os Primeiros Desafios
No dia 19 de novembro de 1910, Berg e Vingren desembarcaram em Belém do Pará. O cenário era hostil: clima equatorial escaldante, febre amarela, malária e um idioma totalmente estranho. Para sobreviverem e aprenderem o português, Daniel Berg conseguiu um emprego como caldeireiro na Companhia Portuária de Belém, enquanto Gunnar Vingren, que tinha a saúde mais frágil, ficava encarregado de estudar a língua e ministrar.
Eles foram inicialmente acolhidos no porão da Igreja Batista de Belém. No entanto, a mensagem que traziam era diferente. Eles pregavam fervorosamente sobre a atualidade dos dons espirituais, a cura divina e, principalmente, o batismo no Espírito Santo com a evidência de falar em novas línguas.
A Ruptura e o Nascimento da Igreja
A mensagem pentecostal logo encontrou corações sedentos. O marco histórico aconteceu na madrugada de 8 de junho de 1911, quando a irmã Celina de Albuquerque, membro da Igreja Batista, foi batizada no Espírito Santo e falou em línguas após orar intensamente em sua casa.
O fervor tomou conta de vários membros, mas a liderança tradicional da igreja não aceitou a nova doutrina. O resultado foi um cisma. No dia 13 de junho de 1911, Vingren, Berg e cerca de 18 irmãos que abraçaram o movimento pentecostal foram desligados da igreja local.
Sem templo e sem apoio, mas cheios de fervor espiritual, esse pequeno grupo se reuniu na casa de Celina de Albuquerque no dia 18 de junho de 1911. Ali nascia a “Missão de Fé Apostólica”, que em 1918 passaria a se chamar oficialmente Assembleia de Deus.
Um Legado de Fogo
O que começou no porão de uma casa em Belém se espalhou pelo interior do Norte, subiu o Nordeste, desceu para o Sul e o Sudeste, impulsionado pelo trabalho incansável de missionários, colportores e irmãos anônimos. Hoje, mais de um século depois, a Assembleia de Deus congrega milhões de membros e está presente em quase todas as esquinas do Brasil.
A coragem de dois jovens que obedeceram a uma voz profética provou que, quando o fogo do Espírito é aceso, não há fronteiras que possam contê-lo.
